domingo, 8 de março de 2009

Carta de despedida de Pessoa a Ofélia


Para finalizar o meu blog, resolvi escrever uma carta inventada por mim, de despedida de Fernando Pessoa a Ofélia no dia da sua morte:


Ofelinha querida,


Pensavas tu que me iria esquecer de te dizer um último adeus, um último adeus á pessoa que mais amei neste mundo?
És e serás sempre a minha mulher, a minha doce mulher que nunca me abandonou e me foi companheira de longas horas nesta minha curta vida que agora chega ao fim. Agora apenas posso ser amado pela morte, e magoar quem vai ficar neste mundo a chorar a minha ida para a outra vida.

Tenho curiosidade de como será a outra vida. Será como um sonho? Será como nadar num mar de água quente para toda a eternidade? Será uma seara de trigo sem fim a vista onde o sol nunca vai embora e a brisa que o vento sopra é fresca como os teus beijos em tempos foram, frescos e suaves na minha pele áspera e já velha.
Quero que tomes conta dos meus pequenos amigos, Caeiro, Campos e Reis, e recorda com eles tudo o que tiveres a recordar de mim, minha doce alma.

Coloco em ti o pouco que ainda me resta da minha vida, pois é por ti que ainda me encontro vivo. Por todos os momentos que os nossos corpos e bocas se procuraram e se encontraram, pelas horas que fiquei a ver a tua beleza através do vidro da tua janela...Nem um vidro te tira o dom de ser bela.
Meu amor, está na hora de ir, na hora de partir. Nunca pares de lutar pelo que queres e acredita em ti meu amor. Levo no meu coração todos os segundos que passei a teu lado, todas as vezes que te disse amo-te e levo também esta minha vida que ganhou brilho contigo a meu lado.


Do sempre teu, Fernando Pessoa.


Domingo, 8 de Março de 2009


a nostalgia da infância...

Porque esqueci quem fui quando criança?
Porque deslembra quem então era eu?
Porque não há nenhuma semelhança
Entre quem sou e fui?
A criança que fui vive ou morreu?
Sou outro? Veio um outro em mim viver?
A vida, que em mim flui, em que é que flui?
Houve em mim várias almas sucessivas
Ou sou um só inconsciente ser?

Fernando Pessoa Ortónimo

Todos nós com o passar do tempo acabamos por esquecer a criança que em tempos fomos, os castelos que construimos na areia com o maior dos cuidados já não são importantes, as possas de água por onde chapinhamos já nos dão pelo joelho e não dá mais para brincar lá, e acima de tudo as preocupações e opções de vida começam a ser outras. O nosso quotiano torna-se em rotinas impossiveis de quebrar, e as escolhas para o futuro são bastante importantes para sequer perdermos tempo a pensar no passado e na criança que fomos e na felicidade que transbordava dos nossos olhos nessa idade. Quando me lembro de mim criança, lembro-me quase sempre juntamente com a minha irmã, e as gargalhadas são muitas, os risos, as histórias, todos os natais as histórias se repetem mas é como se estivessem a ser ouvidas pela primeira vez. Fecho os olhos e mergulho naquelas memórias boas, que hoje me fazem ser quem sou, e não importa quem não gosta, importa sim quem gosta e de quem eu gosto. A nostalgia da infância é um sonho, uma mão que nos passam na cara para nos dar um miminho nos faz lembrar a nossa mãe quando tinhamos pesadelos e não conseguimos mais adormecer sem ser na cama dos "papás" rodeados de miminhos. Um sonho que ninguém se importa de viver, desde que a infância seja tão iluminada como os sonhos são, uma luz igual á luz da lua reflectida em todos os lagos do mundo. A luz da infância reflectida em todos os nossos dias que são rotinas que não têm fim á vista trás-nos um brilho ao nosso sorriso.
Domingo, 8 de Março de 2009

Gato que brincas na rua!


Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.


Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.


És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.

Fernando Pessoa Ortónimo

Hoje é para o meu miminho: para a minha Pantufa, a minha grande companheira de grandes horas de estudo, de grandes horas deitada na cama deprimida a fumar cigarros a ouvir música e a derramar lágrimas, a minha companheira quando estou sozinha em casa, aquela que dorme todas as noites comigo, talvez aquela que sente mais a minha falta quando não estou perto dela nem que seja para lhe dar festinhas no pescoço e ouvir o "ronronar" dela. Esta companheira é nada mais nada menos que a minha gata. O meu miminho amoroso que me acompanha desde os meus dois anos de idade. Ter a Pantufa perto de mim faz-me sentir em casa, faz-me sentir especial por saber que ela gosta tanto de mim que me segue por tudo quanto é canto em casa. É quase como o amor de Pessoa por Ofélia, quase como o amor do peixe pelo mar, é o meu amor por ela. E quando ela partir, não há ninguém que vá sentir mais a falta dela do que eu, dos dias em que já não vou ter que vir para casa dar-lhe comida em vez de ficar com os meus amigos, dos dias em que chegar a casa e não vou ouvir o miar dela ou ela não me irá receber ao all de entrada, dos dias em que não vou ter nada todas as noites a roubar-me a almofada. Sinto que esses dias estão próximos porque ela está velhinha e com problemas respiratórios mas se há alguém que nunca a vai abandonar sou eu, porque 15 anos de tanta cumplicidade como uma mãe para um filho são dignos de um companheirismo até ao último segundo da sua vida.

Amo-te Pantufa

Domingo, 8 de Março de 2009

sábado, 7 de março de 2009

O eu fragmentado


" A verdade é que o poeta não foge à fragmentação que o confronto com o seu ser plural acarreta, antes a procura, como único caminho para o encontro consigo mesmo".


Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-se em mim,
Ah! mas eu fugi.

Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que não se cansar?

Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte,
Oxalá que ela
Nunca me encontre.

Ser um é cadeia,
Ser eu é não ser.
Viverei fugindo
Mas vivo a valer.

Viver a valer é das coisas mais dificéis de fazer na vida certamente. Viver de tal forma até nos cansarmos de tanta intensidade e de precisarmos de descansar, "oxalá que essa necessidade de descanso nunca venha ao nosso encontro".
Sábado, 7 de Março de 2009

quarta-feira, 4 de março de 2009

Destino...

Cada um cumpre o destino que lhe cumpre,
E deseja o destino que deseja;
Nem cumpre o que deseja,
Nem deseja o que cumpre.

Como as pedras na orla dos canteiros
O Fado nos dispões, e ali ficamos;
Que a sorte nos fez postos
Onde houvemos de sê-lo.

Não tenhamos melhor conhecimento
Do que nos coube que de que nos coube.
Cumpramos o que somos.
Nada mais nos é dado.

Ricardo Reis
Quarta-Feira, 4 de Março de 2009